É a primeira vez que o local estará fechado desde 1998

Durante a temporada anterior, o Camping foi notificado pela Patrulha Ambiental da Brigada Militar por falta de licenciamento ambiental

Miguel Gonçalves teve sua rotina de trabalho alterada pela falta de público

No entanto, não se atribui às cheias o motivo do fechamento. Durante a temporada anterior, o Camping foi notificado pela Patrulha Ambiental da Brigada Militar por falta de licenciamento ambiental. E em junho foi impedido de reabrir as portas enquanto não fizesse todas as readequações no sistema de esgoto exigidas pela nova legislação. É a primeira vez que o local estará fechado desde 1998, seu ano de fundação.

A situação, portanto, pegou apenas o público de surpresa. Wagner Rodrigues, diretor-presidente da empresa responsável pelo camping, a Estação do Terminal Rodoviário de Pelotas (Eterpel), conta que diante da notificação recebida em dezembro de 2014 foi necessário fazer um acordo com a Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA) para aguardar o término da temporada. Em junho deste ano, em audiência com a Promotoria, ficou estabelecido o fechamento até que a licença fosse efetivada. “Solicitar a licença significa fazer as obras necessárias para readequação e apresentar novamente à Justiça. Isso demanda muito tempo e dinheiro”, explica. A verba necessária é elevada: R$ 700 mil. Destes, R$ 100 mil são por conta dos reparos necessários causados pelas cheias. O local ficou sem energia elétrica após um curto-circuito causado pelo alagamento nos disjuntores. Assim, o orçamento preocupa a Eterpel.

Sem dinheiro para cobrir as obras, a empresa tentou viabilizar com a prefeitura que, em período de corte de verbas, também não vê como contribuir. Enquanto isso, pelo local, o morador e administrador há 15 anos, Miguel Gonçalaves, precisou se adaptar a uma rotina diferente. Antes, o trabalho para manter tudo funcionando era árduo e não tinha hora para acabar.

Hoje, ocupa seu tempo prestando explicações aos incontáveis clientes que chegam para iniciar um período de descanso em meio à beleza natural que o lugar proporciona, mas precisam ir embora. Sua casa, onde vive com a família, é a única com luz. É de lá que ele percebe a insegurança que permeia o local e o número de animais abandonados na estrada. E acabou vivenciando, entre julho e outubro, as consequências da intensa chuva.

Para o futuro, um grande projeto em vista

Mesmo que os recursos entrassem, não haveria tempo suficiente para colocar tudo em funcionamento para este ano. O destino mais viável para o Ecocamping, segundo Wagner, é passar a responsabilidade à SQA. O secretário de Qualidade Ambiental, Fabrício Tavares, diz que a equipe técnica da Secretaria, com apoio da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), está elaborando um projeto para criar a primeira unidade de conservação ambiental em Pelotas.

Por se tratar de uma área de preservação permanente, qualquer atividade exercida por lá precisa de licenciamento ambiental. Uma vez constituída, ela poderia captar recursos no fundo estadual e nacional.
Só no primeiro, por exemplo, existem R$ 100 milhões disponíveis e nenhum projeto cadastrado.

Tavares ainda explica que o projeto abrange toda a região da mata do Totó, Barro Duro, uma parte do Pontal da Barra – que não afetaria os moradores -, uma parte do entorno do arroio Pelotas e do canal São Gonçalo. No entanto, a constituição exige um estudo aprofundado sobre a fauna e a flora.

Especificamente em relação ao camping, a ideia inicial é transformá-lo em um parque verde de lazer e ecoturismo. “Em tese, a lei até permite que ele seja para lazer, mas ainda não se sabe se dará para acampar, por exemplo. Queremos fazer tudo de forma muito organizada”, destaca.
O projeto deve ser apresentado até abril de 2016. A partir disso será necessário que seja aprovada lei municipal que forme oficialmente a unidade, incluir no sistema estadual e, em seguida, no Ministério do Meio Ambiente. Só assim os recursos poderão ser utilizados.

Fonte: Diario Popular

O mundo não é um palco para canastrões. É para sermos nós mesmos e úteis a ele

Vejo no UOL/ Folha uma “reportagem” sobre o ator e poeta Eduardo Tornaghi, apresentado quase como um misantropo, um anômalo, por ter largado a “máquina de celebridades” global e ter ido fazer o que gosta e crê que pode ser útil às pessoas: como ele diz, “conhecer o Brasil real e o mundo subterrâneo da cultura”.Por acaso de relações familiares, conheci Tornaghi, embora superficialmente. Não é, como a matéria induz em seu título capcioso – Eduardo Tornaghi, o Fábio Assunção dos anos 70, hoje sobrevive nas ruas – algo parecido com um indigente. Nada a ver com um “ripongão” sem compromissos. Sereno, tranquilo, pai amoroso, presente na vida das filhas, inteligente, antenado e delicado ao falar: pouco e só um pouco mais quando se emociona.E a pobreza na reportagem não é a dele, é a de quem escreve hoje nos jornais.Nem era preciso que conhecesse: a minoria que lê com atenção verá que ele não fez e faz mais do que queremos ou já quisemos fazer: viver o que queremos para o mundo, não o que “certo” mundo nos faz ser, querendo ou não.Verdade  que ninguém consegue isso todo o tempo. No seu Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos escrevia:(…)como outros espíritos miúdos dependiam de nós, e era preciso calçá-los, vesti-los, alimentá-los, mandá- los ouvir cantigas e decorar feitos patrióticos, abandonamos as tarefas de longo prazo, caímos na labuta diária, contando linhas, fabricamos artigos, sapecamos traduções, consertamos engulhando produtos alheios. De alguma forma nos acanalhamos.Mas, da mesma forma torta , sobrevivemos para, como fez Tornaghi um dia, acharmos nosso caminho com menos pesos e mais asas (embora asas sempre nos deixem um certo medo de despencar).Infelizmente, o mundo da mídia não alcança estes graus de liberdade. Recusar o glamour da “celebridade” é estranho, “anormal”, algo louco, embora aquilo seja uma evidente e lucrativa tolice. Tornaghi diz que volta e meia é procurado para reportagens (de TV inclusive. como a Record) para matérias sobre um “eremita” que não existe:“Foi maravilhoso, porque jogou uma luz no que faço. No entanto, focaram no meu sumiço e não no fato de que saí do circuito para fazer o que Manuel Bandeira [poeta, 1886-1968] e Villa-Lobos [maestro e compositor, 1887-1959] fizeram: olhar para a cultura brasileira e ajudar a desenvolvê-la. Também falaram pouco do pessoal com o qual convivo. Gente comum que faz um trabalho educativo. Mas é TV. Foi válido. Fiquei apenas um pouco decepcionado”E deve continuar, porque não há uma palavra sobre o que ele faz, de verdade: refletir e divulgar arte e entendimento das palavras e do mundo que elas tentam descrever.Por isso, coloco aí embaixo uma reflexão útil para quem faz do escrever sua profissão e compulsão: o que está no texto só revive e toma forma quando é lido e, por isso, o ritmo e o clima que a escrita induz trazem, eles próprios, boa parte do significado que o escrito conterá.

Fonte: TIJOLAÇO